Alexandre Taniguti





Publicada em 29/12/2015
Meu melhor natal

por Alexandre Taniguti

Era uma festa, nossa véspera de natal em família.
Nossa casa, que não era tão pequena, se tornava minúscula quando habitada por
crianças viris que corriam de um lado para o outro.

Minha mãe, a anfitriã se divertia com a saudável bagunça que fazíamos na divertidas brincadeiras pega-pega e esconde-esconde. Como se combinássemos
dividíamos nossos lugares: as crianças no quintal, os homens na sala debatendo sobre futebol ou sobre a terrível inflação que assustava na década de oitenta e as mulheres na cozinha.

Como era maravilhoso o aroma que vinha da cozinha...
Uma verdadeira alquimia de sabores que eram realizadas por mamãe e minhas tias. As lembranças gustativas ainda pairam em minha memória e não há como não sentir o gosto dos frutos do mar e peixe assado, lombo e pernil, além dos doces fantásticos. 

O momento mais esperado era a hora dos presentes. Após a ceia, todos satisfeitos, após uma verdadeira comilança, sentávamos ao redor da árvore natalina
iluminada pelas luzes compradas, meses antes, na rua vinte e cinco de março. Nessa hora, subitamente  tocava a campainha e todos fingiam crer que um visitante inesperado estava a chegar: Papai Noel! 
Quando a porta se abria deparávamos com uma cena engraçadíssima. Um bom velhinho diferente das campanhas publicitárias... Era uma barba de algodão, barriga inchada de travesseiro e uma roupa vermelha quase vinho cintilante. Com o passar dos momentos, após uma investigação minuciosa, vendo jeitos e trejeitos, a conclusão foi tão obvia, mas mesmo assim sentíamos como Sherlock Holmes: o
papai Noel era minha irmã mais velha!
Ríamos daquela situação e ríamos ainda mais dos primos pequeninos que não percebiam o disfarce para nos entreter. No final das contas o que importava era receber o presente, fosse ele dado pela minha irmã ou pelo Noel em pessoa. Queria
rasgar os pacotes coloridos e ganhar carrinho ou uma bola de futebol, apesar do meu sonho ser a  esperada bicicleta, já pedida em cartinhas enviadas ao polo norte, há alguns anos. 
Naquele ano minha noite foi um pouco frustrante. Meus presentes, diferentemente da gurizada que ganharam muitos brinquedos, foram um par de meias e um pijama de flanela. Era notório meu olhar vago, hora triste, sem entender o porquê
tamanha desfeita. Imaginem minha face ao abrir as embalagens de presentes e se deparar com a roupa flanelada. Cômico se não fosse triste.
Após os comprimentos de feliz natal nos primeiros minutos do dia vinte e cinco, e após saborear os ricos doces (que para mim não estava tão doce) todos se foram. Eu fiquei então ali, sozinho, mirando aquela árvore natalina e ainda sem entender o motivo de eu não ter ganho nenhum brinquedo como meus primos e irmãos ganharam. Foi nesta reflexão que adormeci, sendo gentilmente carregado ao meu
quarto pelo meu cuidadoso pai. 
Quando acordei estava confortavelmente em minha cama e tive umas das imagens mais bonitas da minha vida: uma bicicleta azul com prata e com um enorme laço vermelho sobre ela! Meu Deus, papai do céu (não o Noel) escutou minhas inocentes preces.
Como um raio saltei da cama e montei na magrela e em poucos minutos estava radiante pedalando entre a sala e o quintal. Meus pais felizes pela minha
surpresa e contentes por dar certo o plano tramado.
Meus natais sempre foram datas especiais. Crer que há o milagre do natal ainda me motiva todos os anos. Que Deus possa abençoar a todos nós.

Dr. Alexandre Taniguti





Publicada em 30/10/2015
Raízes da minha vida

por Alexandre Taniguti

Agrande São Paulo de antes era muito mais tranquila. Ainda lembro das pipas coloridas com rabiolas cintilantes ao sol de domingo no ar não tão poluído. As brincadeiras com meus irmãos eram recheadas de travessuras, passeios de bicicleta, pega-pega. 

Tínhamos a sensação de viver em uma metrópole, mas era possível ter entretenimento inocente ao ar livre. Em frente de casa havia uma árvore. Não era tão grande tampouco pequena. Era linda e nós a adorávamos. Não era frondosa e nem frutífera, mas proporcionava a nós boas brincadeiras e consequentemente risadas. Escalávamos, subíamos e pendurávamos todos os tipos de cordas em seus finos galhos resistentes nas nossas brincadeiras de "Tarzan".

 Certa vez, meu primo amarrou um pedaço de barbante em um ramo de caule e a outra ponta em suas mãos. Saltou de maneira súbita de tal forma que ficou pendurado com o braço preso e os dedos com a pressão começaram a ficar arroxeados. Um tio próximo correu para socorrer o "Super-Homem" preso e com os dedos quase isquemiados da pressão exercida pela tenaz linha. 

O primo quase perdeu os dedos, mas ficou tudo bem. Caímos em gargalhadas depois de tudo resolvido. Apesar dos contratempos aquela árvore fez parte de toda minha infância e considerávamos como parte de nossas vidas. Ela, com a magnitude da mãe natureza, também cresceu, e a planta outrora de médio porte estava virando uma grande árvore, com tronco digno de ser abraçada com toda nossa envergadura. Com isso suas raízes começaram a rachar o concreto da calçada e mostrar que ela estava forte e bem nutrida. Minha mãe costumava dizer que isso era devido às cascas de ovo e restos orgânicos que enterrava junto à base da nossa verde amiga. Com o passar do tempo nossa cidade foi mudando. 

O movimento das ruas paulatinamente ficou mais caótico, com muito mais carros que costumavam a cada vez passar mais velozes. A violência aumentava e roubos, homicídios e sequestros infestavam noticiários no rádio e televisão. O ar que já não era puro estava cada vez mais cinza. Nossas brincadeiras concomitantemente foram ficando cada vez mais confinadas a nossa casa, sair era como violar uma importante regra: rua não é lugar para se divertir. Assim como o ar, nossas vidas ficaram mais cinzas.

 A tristeza maior veio com uma carta entregue de maneira despretensiosa pelo o inocente carteiro, e fui eu que a recebi. Levei aos meus pais e de maneira maquinal ele a abriu. Ao ler o conteúdo, parecia que já sabia que se tratava... Era uma notificação da prefeitura que dizia as palavras mais tristes que eu escutara até aquele sórdido momento: "A árvore junto a sua calçada devera ser cortada, pois está a atrapalhar os transeuntes e danificando o asfalto adjacente."

. Apesar de ser ainda um menino eu já sabia que a ordem dizia que tínhamos que derrubá-la. Imediatamente fui para frente de casa e abracei a minha amiga. Sentei aos seus pés e chorei sobre as raízes da minha vida. Inefavelmente dias após cortaram a árvore e aquilo doeu em mim. Sepultaram a ela jogando cimento sobre o resto de caule ainda exposto. 

Minha vida em São Paulo nunca mais foi a mesma. Hoje moro no interior e ainda vejo cenas inocentes no dia a dia. Apesar da globalização, telefones sem fio e tablets de última geração, ainda ando de bicicleta com meu moleque pela rua. Doces lembranças vêm à tona nessa integração pai e filho.





Publicada em 31/08/2015
Jardim das nêsperas

por Alexandre Taniguti

Quando criança adorava ir à chácara do tio de papai. Era um terreno enorme. Andar de pé no chão naquele lugar cheio de brincadeiras era uma aventura e tanto para um moleque paulistano como eu, acostumado apenas com a selva de pedras e gigantes arranha-céus.

Não era sempre que íamos lá... Geralmente umas duas vezes ao ano, sempre ao inicio de dezembro para desejar as boas festas e após o aniversario do velho tio, a quem meu pai tinha especial carinho. Eram seis pessoas, o pai e a mãe e quatro filhos sendo três homens e uma moça caçula. Pessoas extremamente simples com o dinheiro contado para prover a boa educação dos filhos. O chão da casa era de terra batida e a mobília que sentávamos era o velho assento da perua Kombi aposentada há alguns anos. Para eu e meus irmãos que sempre tivemos tudo, estar naquele ambiente simples era um tanto constrangedor, um misto de surpresa e dó.

A velha tia sempre que chegávamos corria a dispensa e retornava com uma bandeja repleta de biscoitos e uma garrafa de vidro de refrigerante. Naquela época saborear uma coca cola ou um guaraná (itens tão banais nos dias atuais) era privilégio de ocasiões festivas. Era muito especial perceber que apesar da baixa renda e dos esforços tremendos da parcimoniosa família eles sempre nos ofereciam o melhor.

Após a barriga cheia e com o lábio doce do açúcar da bebida gasosa, os primos nos levavam para explorar a saudosa propriedade. Havia um barracão nos fundos, onde criavam canarinhos. Era ensurdecedor o barulho do canto das centenas de pássaros que ali estavam. Eles riam com o nosso divertimento do pandemônio de sonidos que ali eram produzidos. Quanta alegria!

E lembro, por fim, como se fosse hoje quando após interagir com os canários visitávamos a plantação de nêsperas que proporcionavam o sustento daquela bela família. Esse era o clímax de nossa visita, ver o pomar com as árvores frondosas de cores verdinhas e com um segredo a ser revelado em saquinhos de jornal manipulados cuidadosamente por mãos bem treinadas, a fim de proteger o maior bem daquela família de pragas daninhas: A Nêspera!

Cuidadosamente o primo abria o saco preso ao caule da árvore e ouro aparecia em forma de fruta. Cuidadosamente ele sacava o alimento e nos oferecia já despelada para que tivéssemos apenas o trabalho de degustá-la. Que delicia! O doce do refrigerante agora era apenas uma vaga lembrança e o mel da nêspera nos trazia o dom que aquela família trazia. 

Hoje a chácara em que provei os frutos mais suculentos da minha vida não existe mais. A conurbação engoliu meu campo dos sonhos.

O velho tio faleceu já faz alguns anos e os canários foram libertos para experimentar o gosto da liberdade. A tia mora com a prima, ginecologista, assim como eu. Os outros filhos são engenheiros e outro também é médico. Os seus filhos, com cuidado e carinho, se tornaram bons frutos. As casas dos primos hoje são ornamentadas com bom piso, a base de porcelanato e granito puro que não lembram em nada a terra vermelha batida. Mas a origem humilde ainda ressoa tornando-os pessoas retas. O jardim das nêsperas e o mel na boca ainda moram em minha lembrança, doce lembrança.

Alexandre Taniguti 





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